A
igreja e os políticos
Autor(a):Jehozadak
Pereira
Novamente a igreja
brasileira será convocada a
votar nos que se dizem cristãos
Política é
nauseante ou como queriam nauseabundo.
O que faz um cristão comprometido
com a palavra de Deus metido na política?
Creio que os próprios poderiam
responder - se é que tem respostas
para tanto. A desculpa costumeira
é que se candidatam para amenizar
o sofrimento do povo,
e alguns - raros - realmente têm
esta idéia, porém, a
maioria quer é se locupletar
mesmo. Muitas vezes o que se vê
é a mudança radical
de atitude de quem é eleito
para qualquer cargo. Pensemos juntos.
Quanto ganha um deputado? Vamos tomar
por base o salário de um deputado
estadual por São Paulo, que
é de R$ 9,5 mil. Se multiplicarmos
este valor por 48 - duração
de uma legislatura - teremos o total
de R$ 456 mil, mais verbas de representação,
que podem chegar a 60% deste valor.
Só que um deputado não
está interessado nestes valores.
Se estivesse teria prejuízo,
pois uma campanha razoável
para qualquer Assembléia legislativa
estadual ou a Câmara Federal
custa em torno de U$ 1 milhão.
Uma vez instalado, ninguém
quer abrir mão da função,
das mordomias, e do poder inerente
ao cargo. Uma campanha pode não
ser tão rica? Pode sim, ai
é que entra muitas vezes a
igreja e a o abuso da fé alheia.
Na campanha passada
vimos uma candidatura - Garotinho
- que se dizia a serviço da
igreja, e um dos motes era que pela
primeira vez poderíamos eleger
um candidato genuinamente evangélico.
Mundos foram movidos para que tudo
parecesse que a pretensão tomasse
ares oficiais, o que muitas denominações
e líderes levaram a sério
e ao pé da letra. Houve a parte
muito delírio - a de que poderíamos
eleger um evangélico - venderam
uma idéia de que isto era possível,
quando isto estava longe da realidade.
Ouvi de um pastor que a Rede Globo
não queria que um cristão
professo fosse eleito, e por isso
manipulava e escondia as pesquisas
que colocavam Garotinho em primeiro
lugar. Eu disse a ele que me trouxesse
a pesquisa e eu me encarregaria de
divulgá-la. Até hoje
estou esperando. Talvez os bastidores
desta campanha nunca virão
a público, mas o que se deixou
vazar é que o dinheiro empregado
não tinha lá suas origens
corretas e legais.
Uma pequena amostra
de como funciona o sistema de arrecadação
de fundos para campanhas, surgiu com
as gravações em vídeo
de um graduado funcionário
do Palácio do Planalto, ligado
ao ministro chefe da Casa Civil José
Dirceu envolvido com pedido de dinheiro
para duas campanhas - Benedita da
Silva e Rosinha Garotinho. Até
agora não se ouviu nenhum desmentido
delas ou das suas assessorias. Um
dos notáveis atingidos em cheio
pelo escândalo foi o deputado
Carlos Rodrigues, o Bispo Rodrigues,
porta-voz e líder da bancada
da Igreja Universal do Reino de Deus,
na Câmara Federal. Ao primeiro
sinal evidente de que Rodrigues estava
envolvido com Diniz, Edir Macedo,
defenestrou-o, destituindo-o das suas
funções de porta-voz
da IURD; posteriormente excluiu-o
da igreja retirando o título
de bispo.
Dias depois os jornais noticiaram
que Macedo ordenou que Rodrigues devolvesse
dois automóveis e saísse
do apartamento de propriedade da IURD.
Ao que parece o rompimento foi total
e sem volta, mas como em política
o inimigo de hoje é o aliado
de amanhã, tudo é possível.
O mundo da política é
rasteiro e desprovido de ética,
e é enganoso pensar que como
cristãos vamos modificar este
ambiente, o mais fácil é
corromper-se. Claro, que há
exceções, mas a regra
é a de que um cristão
neste meio vai ser manobrado, ou fazer
o que os políticos fazem -
ser populistas. Um exemplo claro disto
foi à presença da governadora
Rosinha Matheus nos desfiles das escolas
de samba no último carnaval
em Campos, Rio de Janeiro, o jornal
"O Dia" de 26 de fevereiro
de 2004, trouxe a notícia -
Governadora cai no samba.
Enredo de escola em Campos, Rosinha
brinca animada durante a madrugada
toda, chora de emoção
e deixa camarote para desfilar. Emocionada,
a governadora Rosinha Garotinho não
resistiu, desceu do camarote e desfilou
no meio da ala das baianas da Escola
de Samba Às de Ouro, de Guarus,
que a homenageou na manhã de
ontem, com o enredo "Do teatro
ao Palácio Guanabara, a Rosa
que faz". A atitude surpreendeu
foliões e policiais, que correram
para garantir sua segurança.
A governadora foi conduzida na passarela
pelo Rei Momo, Luiz Augusto Santana
Coliseu, e a Rainha do Carnaval, Andréa
Rocha. Vim agradecer a essa
população, que estava
esperando um aceno meu. Eu tinha que
agradecer o carinho da minha cidade.
A escola está belíssima.
Minha nota é 10, elogiou.
Claro, que é um direito inquestionável
da senhora governadora ir onde quiser,
prestigiar o que precisa ser prestigiado;
a sua ausência na avenida não
traria problemas maiores, mas de fato
como cristã professa que é,
era necessária a sua ida lá?
Quem vai numa festa
pagã e acha que não
há problemas com isto vai a
qualquer lugar e igualmente não
vê dificuldade nenhuma. O problema
é que na próxima campanha
para qualquer cargo eletivo que concorra
ela vai estar nos púlpitos
das igrejas com a mesma desenvoltura
com que desfilou no carnaval. Como
tratar isto? Novamente a igreja brasileira
será convocada a votar nos
que se dizem cristãos, e sequer
olhará se de fato quem o diz,
realmente é. Na última
campanha vimos a quantas andou quem
se dizia cristão. Para quem
não se lembra, e citando nomes,
Anthony Garotinho se apresentou como
candidato dos evangélicos e
não foram poucos os que apoiaram
- sabe-se lá a que preço,
não necessário monetariamente.
Garotinho compareceu em eventos denominacionais,
congressos e convenções,
oferecendo-se como única alternativa,
levando consigo crédulos eleitores
e fiéis, mais ainda, denominações
inteiras. Reafirmo que a igreja brasileira
deve estar afastada da política,
e seus pastores devem sim, preocupar-se
com os seus rebanhos. Particularmente
penso que se um cristão quer
concorrer a qualquer cargo eletivo
- o que é um direito inquestionável,
que o faça nas ruas longe das
igrejas, e que não apele para
a sua condição de cristão.
Devemos sim, rechaçar os aventureiros
que surgem a cada eleição
manipulando a igreja para que esta
os eleja.