A
Hora da Glória de Jesus
"Tende
em vós o mesmo sentimento
que houve também em Cristo
Jesus, pois ele, subsistindo em
forma de Deus, não julgou
como usurpação o ser
igual a Deus; antes, a si mesmo
se esvaziou, assumindo a forma de
servo, tornando-se em semelhança
de homens; e, reconhecido em figura
humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até
a morte e morte de cruz" (Fp
2.5-8).
Por que, afinal,
Jesus seguiu esse caminho da entrega
total? Por que Ele foi obediente
até a morte, até a
morte de cruz?
Por amor
a Seu Pai no céu
A hora da Sua glória,
quando exclamou na cruz "Está
consumado!", a hora de triunfo
e vitória do Cordeiro de
Deus aconteceu em primeiro lugar
para o Pai no céu. É
óbvio que Jesus morreu por
nós – Jesus nos redimiu
– Jesus nos libertou –
Jesus nos salvou. Mas, embora tudo
isso seja tão belo e verdadeiro,
não aconteceu primeiramente
por nossa causa, e sim, por causa
da vontade santa de Deus, para quem
o pecado é abominação.
Pelo fato do Deus
santo jamais poder tolerar pecado,
Ele não viu outra alternativa
do que enviar Seu próprio
Filho ao mundo para fazê-lO
morrer como cordeiro de sacrifício
pelos pecados. Entretanto, mesmo
que Jesus Cristo já tenha
sido designado para ser o Cordeiro
de Deus desde a fundação
do mundo – porque Deus sabia
como tudo havia de acontecer –,
esta nunca fora a intenção
original de Deus. Como sabemos disso?
Por ocasião da criação
do homem, Deus não incluiu
a necessidade de salvação
– o Calvário –,
embora soubesse que o homem cairia
no pecado.
Em Gênesis
1.26a e 27 lemos sobre a criação
do homem: "Façamos o
homem à nossa imagem, conforme
a nossa semelhança; tenha
ele domínio sobre os peixes
do mar, sobre as aves dos céus,
sobre os animais domésticos,
sobre toda a terra e sobre todos
os répteis que rastejam pela
terra. Criou Deus, pois, o homem
à sua imagem, à imagem
de Deus o criou; homem e mulher
os criou". Disso se deduz claramente
que, por ocasião da criação
do homem, Deus agiu como se nunca
houvesse a queda em pecado –
pois mesmo sabendo muito bem da
queda que haveria de acontecer,
Ele colocou dentro do homem a Sua
própria e gloriosa imagem.
Ao mesmo tempo precisamos saber
que o Filho de Deus estava presente
no ato da criação,
pois está escrito no plural:
"Façamos o homem à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança".
Podemos ver retrospectivamente o
quanto Jesus se alegrou pela criação
dos homens, mesmo que mais tarde
tivesse que morrer por eles: "O
Senhor me possuía no início
de sua obra, antes de suas obras
mais antigas. Desde a eternidade
fui estabelecida, desde o princípio,
antes do começo da terra...
eu era as suas delícias,
folgando perante ele em todo tempo;
regozijando-me no seu mundo habitável
e achando as minhas delícias
com os filhos dos homens" (Pv
8.22-23; 30-31). Aqui se fala da
Sabedoria em pessoa, que não
é outra senão o próprio
Jesus Cristo, pois dEle está
escrito que "se nos tornou,
da parte de Deus, sabedoria, e justiça,
e santificação, e
redenção" (1
Co 1.30). Jesus, que já estava
com o Pai desde a eternidade, participou
da criação do homem
e teve, como diz a Bíblia
Viva: "grande prazer no belo
mundo que tinha sido criado e nas
pessoas que moravam nele".
Como era glorioso o Paraíso
de Deus! Ali não havia pecado,
nem sombra de pecado, nem qualquer
perturbação. Pelo
contrário. O Deus santo e
eterno quis revelar-se de maneira
tão concreta no homem, que
colocou nele a Sua imagem. Imagine
só: Deus se identificou tanto
com a coroa da Sua criação,
que essa criação passou
a ser a imagem refletida dEle mesmo!
Contudo, para grande
pesar do Criador e de todos os Seus
exércitos celestiais, aconteceu:
a coroa da criação,
o homem, caiu em pecado. Com isso,
por um tempo, toda alegria havia
terminado. Pois num só golpe,
a imagem de Deus que Ele havia colocado
no homem foi tocada e manchada e
isso lançou uma pavorosa
sombra sobre o glorioso Paraíso.
O que Deus teve que fazer, então?
Quando Moisés
voltou do Monte Sinai com as primeiras
tábuas da Lei e viu como
o povo dançava de maneira
auto-destrutiva e pecaminosa ao
redor do bezerro de ouro, ele despedaçou
as tábuas de pedra diante
dos olhos do povo. Bem entendido,
tratava-se das tábuas da
Lei que o próprio Deus havia
feito e escrito com Seu dedo, mas
elas foram destruídas por
causa do pecado.
Entretanto, os primeiros
homens que Deus havia feito e nos
quais Ele colocara a Sua imagem,
que, entretanto, sujaram essa imagem
santa pelo pecado, não foram
destruídos. Essa teria sido
a possibilidade mais simples para
Deus, porque dessa maneira Ele poderia
limpar a Sua própria imagem
santa de qualquer contaminação
e desonra. Porém, Deus não
destruiu a Sua criação.
Ele procurou uma possibilidade para
reparar o estrago. Havia somente
um único caminho:
O Calvário
É dentro dessa
perspectiva que precisamos olhar
outra vez essa grandiosa vitória
conquistada no Calvário,
a hora da glória de Jesus
Cristo, que em primeiro lugar foi
a hora de Seu Pai. Como já
dissemos, o alvo primordial não
era resgatar o homem caído,
mas restabelecer a glória
de Deus que fora violada! Somos
tão parciais e humanos em
nosso modo de pensar, que muitas
vezes esquecemos essa verdade.
Naturalmente permanece
o que está escrito em João
3.16: "Porque Deus amou ao
mundo de tal maneira que deu o seu
Filho unigênito, para que
todo o que nele crê não
pereça, mas tenha a vida
eterna". Mas de que amor se
trata aqui? Do grande amor do Criador
para com a Sua criação
que, desde a queda em pecado, jaz
totalmente no maligno. Em outras
palavras: trata-se daquele amor
de Deus que sempre existiu. Muitas
vezes falamos sobre o amor de Deus
como se tivesse se tornado ativo
apenas na cruz do Calvário.
Mas esse é o mesmo amor pleno
de Deus presente quando colocou
a Sua imagem no homem por ocasião
da criação. Que amor
ilimitado Deus demonstrou naquela
ocasião – e Seu amor
nunca mudou.
Quando está
escrito que "todo o que nele
crê... tenha a vida eterna",
não se trata de uma vida
eterna que somente surgiu no Calvário,
mas da vida eterna que os primeiros
homens já possuíam
no Paraíso e haviam perdido
por causa do pecado.
Pela ressurreição
de Jesus Cristo, todas as exigências
de Deus foram cumpridas
Pela entrega da Sua
vida na cruz do Calvário,
o Senhor Jesus ofereceu o sacrifício
pelo pecado original e por todos
os pecados cometidos, e através
desse sacrifício, o Deus
santo pôde reconciliar-se
com Sua criação: "a
saber, que Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo, não
imputando aos homens as suas transgressões..."
(2 Co 5.19). Mas o mais importante
foi que, assim, a imagem santa de
Deus que Ele colocara no homem foi
resgatada. Pois cada pessoa que
responde afirmativamente ao Calvário,
aos olhos de Deus, é transferida
de volta para o estado original
da criação, porque
em Jesus Cristo passa a ser justa.
Em Romanos 8.1 lemos a respeito:
"Agora, pois, já nenhuma
condenação há
para os que estão em Cristo
Jesus."
Assim cada pessoa
que responde afirmativamente ao
Calvário está novamente
de posse da vida eterna que havia
sido perdida no Paraíso.
A esse respeito lemos em 1 João
5.12a: "Aquele que tem o Filho,
tem a vida." Por isso, pela
ressurreição de Jesus
Cristo dos mortos, todas as exigências
do Deus santo – como selo
da obra expiatória consumada
no Calvário – foram
cumpridas.
Penso que João
Batista viu isso claramente, pois
no seu testemunho público
em João 1.29, ele disse acerca
de Jesus: "Eis o Cordeiro de
Deus, que tira o pecado do mundo!"
Ele não disse: "Eis
o cordeiro do sacrifício
do mundo, que leva os homens novamente
a Deus", mas "Eis o Cordeiro
de Deus..." E este Cordeiro
de Deus tem como prioridade a vontade
de Deus e Sua glória e não
as necessidades de um mundo pecaminoso.
Isto significa que Jesus não
foi ao Calvário como o nosso
Advogado, mas como Enviado e Representante
do Deus santo e justo que está
nos céus! Por isso está
escrito em 2 Coríntios 5.19a:
"a saber, que Deus estava em
Cristo reconciliando consigo o mundo..."
E em Romanos 3.25 lemos: "...a
quem (ou seja, a Jesus) Deus propôs,
no seu sangue, como propiciação,
mediante a fé..."
Não é
impressionante o que Jesus fez?
Para restabelecer a honra de Seu
Pai, Ele fez com que todos os que
crêem nEle, no Senhor crucificado,
morto, ressuscitado e que voltará,
tivessem novamente acesso livre
a esse Pai no céu. Somos
exortados a fazer uso desse acesso
com toda confiança: "Acheguemo-nos,
portanto, confiadamente, junto ao
trono da graça..." (Hb
4.16a).
É tão
comovente o que Romanos 8.15 diz
àqueles que foram salvos
pelo sangue de Jesus: "Porque
não recebestes o espírito
de escravidão, para viverdes,
outra vez, atemorizados, mas recebestes
o espírito de adoção,
baseados no qual clamamos: Aba,
Pai". Não, nunca mais
precisamos ter medo, pois Jesus
restabeleceu tudo; entre nós
e o Pai no céu tudo está
purificado pelo sangue de Jesus.
Como é glorioso agora podermos
chamar nosso Pai de "Aba, Pai"
outra vez, Ele que antes nem podia
olhar para nós por causa
dos nossos pecados! Isso encontra
amparo total no Deus Eterno, que
deseja que Seus filhos o chamem
assim, pois está escrito
em Gálatas 4.6: "E,
porque vós sois filhos, enviou
Deus ao nosso coração
o Espírito de seu Filho,
que clama: Aba, Pai!" Em outras
palavras: àqueles que se
tornaram filhos de Deus pela fé
no sacrifício de Jesus Cristo
no Calvário e na Sua gloriosa
ressurreição, a esses
o próprio Deus quer encher
com o Espírito do Seu Filho
para que tenham plena confiança
de chamá-lO de "Aba",
Pai.
Como é
grandiosa a hora da glória
de Jesus Cristo!
Pela Sua cruz e pela
Sua ressurreição Ele
restabeleceu a honra do Deus santo,
e assim foi novamente aberto o caminho
do homem ao coração
do Pai. Nesse sentido devemos gravar
bem fundo em nossos corações
as palavras de Lucas 15.7, onde
o Senhor Jesus diz: "...haverá
maior júbilo no céu
por um pecador que se arrepende..."
A hora da glória de Jesus
Cristo é festejada continuamente
no céu! Você sabe quando?
Cada vez que um pecador se arrepende!
Pois cada pecador que se arrepende
contribui para que a honra do Deus
eterno se torne maior e mais gloriosa!
(Marcel Malgo - http://www.chamada.com.br)
Publicado anteriormente
na
revista Chamada da Meia-Noite,
abril de 1998.