A
origem da religião
Autor(a):R.
Brandt
Nas
montanhas da Etiópia, os gedeos
sacrificavam, entre outros, a uma
divindade chamada "Sheit'an"
Além
de reduzir o ser humano a mero produto
do acaso num descaminho cósmico,
a teoria evolucionista de Charles
Darwin assaltou diversos ramos do
conhecimento, com pretensão
tão dogmática quanto
à da religião a que
se propunha a combater. Seu seguidor,
Edward B. Tylor, teorizou que a religião
surgira quando o homem primitivo deparou-se
com experiências inexplicáveis,
em especial os sonhos. Em geral, antropólogos
evolucionistas entendem que a religião
emergiu do animismo, totemismo ou
do magismo enfim, do espanto
do homem ante fenômenos naturais
ou psicológicos sobre os quais
pouco sabia ou não podia dominar.
Dessas atitudes primitivas teria surgido
o espiritismo (contato com os mortos)
e, como as sociedades foram se estratificando,
o mundo espiritual também o
foi, dando origem ao politeísmo.
Com o advento das monarquias, o politeísmo
foi cedendo lugar a uma divindade
suprema, daí surgindo o henoteísmo
(crença em uma divindade dominando
sobre as outras) e o monoteísmo
(crença em uma única
divindade).
Mas um discípulo
de Tylor, Andrew Lang, começou
a levar a sério os relatos
de viajantes, pesquisadores e missionários
vindos de regiões remotas dando
conta de que mesmo em comunidades
primitivas havia a crença em
um Deus Supremo. Em 1898 Lang publicou
The making of religion
(A formação da religião),
contestando as idéias de Tylor
pela ausência de amparo metodológico,
ou melhor, por serem mera reprodução
do evolucionismo para o campo das
manifestações religiosas.
De lá para cá outras
evidências têm favorecido
a teoria de Lang de que a primeira
religião da humanidade foi
o monoteísmo. Dessa forma,
o homem não teria passado por
um processo de evolução
até o monoteísmo, mas
sim por um processo de depravação,
perdendo sua origem monoteísta
para outras formas de religião
ou espiritualidade. Nesta perspectiva,
Moisés, o líder hebreu,
não teria criado o monoteísmo,
mas sim recuperado um monoteísmo
perdido revivido nos tempos
dos patriarcas hebreus (Abraão,
Isaque e Jacó), e institucionalizado
pelo monoteísmo ético
com a libertação de
Israel do jugo egípcio pelas
mãos de Jeová.
O pesquisador Don Richardson
igualmente desmascara o evolucionismo
religioso de Tylor. Ele cita, por
exemplo, a adoração
dos incas ao deus sol, Inti.
O rei Pachacuti (1438-1471) não
aceitava que uma entidade (o sol)
que cumpria obrigações
pontuais como a de qualquer trabalhador,
e cuja irradiação podia
ser interrompida pelas nuvens, pudesse
ser uma divindade suprema. Organizado
um concílio com os sacerdotes
de Inti, Pachacuti reavivou a memória
dos presentes acerca do antigo e esquecido
Viracocha, o Deus Supremo
e com atributos semelhantes ao Deus
Todo-Poderoso da bíblia,
que em algum momento da história
inca fôra substituído
por divindades menores para favorecimento
de classes sacerdotais. Richardson
relata outras experiências,
como a do missionário norueguês
Lars Skrefsrud, que em 1867 ficou
surpreso diante dos Santal, um povo
que vivia ao norte de Calcutá
(Índia), os quais identificaram
na pregação do cristão
o antigo Deus Thakur Jiu
(o Verdadeiro Deus, na
língua local), reconhecido
e adorado pelos ancestrais daquele
povo. Na região montanhosa
da Etiópia, os gedeos sacrificavam,
entre outros, a uma divindade furiosa
chamada Sheitan
até a chegada do missionário
canadense Albert Brant, cujo Deus
foi identificado com o antigo e onipotente
Deus Magano dos gedeos.
Foi também com a chegada de
missionários ocidentais que
os Mbaka, da África Central,
redescobriram seus vínculos
com o antigo Deus Supremo Koro.
Apesar das evidências,
Andrew Lang foi condenado ao ostracismo
científico, que à época
fervilhava de dogmas evolucionistas
e anti-teístas.